Lutando contra depressão com magnetismo
 

A estimulação magnética transcraniana não é uma terapia nova, mas pode ser a última linha de defesa efetiva contra esse transtorno frequentemente incapacitante.
 

Em 2017, a depressão e o uso de antidepressivos estão em níveis históricos máximos, mas para cerca de um terço dos afetados, a depressão não melhora com medicação e, para esses pacientes, a estimulação magnética transcraniana (EMT), que usa poderosos ímãs para estimular células do cérebro de forma não invasiva, pode ser uma opção viável.
 

Para ser claro, a EMT não é nova; foi aprovada pela FDA em 2008. O que há de novo é que a evidência de sua segurança e eficácia só se tornou mais forte. Agora a EMT é (nos EUA) coberta pelos convênios para tratamentos a pacientes resistentes a depressão e novos estudos mostraram que combiná-lo com tratamentos tradicionais, como a psicoterapia, pode levar a taxas de resposta significativamente maiores. Alguns cientistas também acreditam que a EMT pode ser uma terapia dominante em comparação com os antidepressivos, com base em seu menor custo, maior benefício financeiro e melhores resultados de qualidade de vida. Embora ainda haja muitas perguntas sobre a EMT deixadas sem respostas, é um tratamento com uma forte presença na luta contra a depressão e muita promessa, uma vez que a EMT personalizada se aproxima de se tornar uma realidade.
 

QUANDO A MEDICAÇÃO FALHA: DEPRESSÃO RESISTENTE AO TRATAMENTO
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de depressão, tornando-se a principal causa de incapacidade em todo o mundo. Cerca de 30 por cento das pessoas com depressão são resistentes à medicação e mostram pensamentos e tentativas de suicídio e uma baixa qualidade de vida. Com as opções de tratamento tradicionais ineficazes, esses pacientes precisam de uma solução.
 

Uma dessas pessoas é Brenda Griffith, de 63 anos, enfermeira aposentada, mãe e avó.
 

“Minha depressão começou antes dos meus 30 anos, quando minha vida não era muito boa. Eu não conseguia pensar claramente o maior tempo e era difícil trabalhar como enfermeira. Na verdade, não conseguia aproveitar a vida”, diz Griffith.
 

Griffith foi diagnosticada com depressão no início dos anos 90 por seu psiquiatra, James Beeghly, e posteriormente foi prescrito quase todas as medicações antidepressivas.
 

Os antidepressivos são os mais utilizados no tratamento para a depressão. Novos dados do CDC relatam que cerca de um em cada oito americanos com mais de 12 anos tomaram antidepressivos. A maioria dos pacientes com depressão relatam alguma melhora em resposta à medicação, mas para Griffith, os antidepressivos apenas pioraram as coisas.
 

“Minha depressão piorou progressivamente quando tomei os medicamentos. Peguei 12 medicamentos ao longo dos anos, e nada parecia funcionar”, disse Griffith. “O que é pior é que também tive efeitos colaterais terríveis como náuseas o tempo todo”.
 

Acontece que Griffith apresentou depressão resistente ao tratamento, um termo usado para se referir a casos de depressão onde o paciente ainda exibe sintomas de depressão após dois ou mais tratamentos antidepressivos.
 

Como outra opção de tratamento, Griffith iniciou a terapia eletroconvulsiva (ECT), uma terapia invasiva usada para casos mais severos de depressão que transportam correntes elétricas através do cérebro. A ECT é usada para tratar casos severos de depressão resistente ao tratamento, mas traz riscos e efeitos colaterais, incluindo perda de memória, confusão e efeitos físicos, todos experimentados por Griffith.
 

“A ECT salvou minha vida, mas não era suficiente para o meu funcionamento normal. Tive que abandonar a enfermagem”, disse Griffith. “Eu estava na ECT por 15 anos, mas por causa do longo prazo de ECT, aprender coisas novas era difícil. Tive tanto medo da perda de memória piorar, não queria mais fazer isso”.
 

Com os antidepressivos e ECT incapazes de melhorar a vida de Griffith, ela começou sua última opção: EMT, que havia sido aprovada pela FDA para a depressão resistente ao tratamento.
 

A EXPERIÊNCIA DA EMT PARA DEPRESSÃO
Com a estimulação magnética transcraniana, uma pequena bobina eletromagnética é colocada contra a cabeça de um paciente em um local preciso. Para os pacientes com depressão, essa localização é o córtex frontal esquerdo do cérebro, historicamente, mostrou ser menos ativo em pessoas com depressão.
 

A EMT tenta consertar a falta de atividade no córtex frontal esquerdo, fornecendo estimulações diárias que religam e fazem com que o córtex se torne mais excitável e produza um efeito antidepressivo duradouro.
 

A natureza não invasiva da EMT é o que o torna atraente em comparação com a ECT. Quando a EMT foi clinicamente utilizada pela primeira vez, houve uma certa hesitação em sua adoção generalizada devido a preocupações com sua segurança, principalmente se isso causaria acidentes acidentais. No entanto, estudos recentes mostram que não há maiores preocupações de segurança com a EMT.
 

“O termo não invasivo refere-se ao fato de que nenhuma cirurgia é necessária”, disse Aaron Boes, especialista em EMT na Universidade de Iowa. “Na verdade, os dados de segurança para a EMT são muito fortes, não há efeitos colaterais cognitivos importantes nos pacientes e o risco de convulsões é inferior a 0,1 por cento”.
 

O tratamento padrão com EMT ocorre em sessões de 40 minutos todos os dias da semana, por 4 a 6 semanas. Cada sessão de tratamento individual pode custar de US$ 300 a US$ 500 (no Brasil, de acordo com os valores do CBREMT, cada sessão custa em torno de R$ 400), e normalmente, a terapia com EMT precisa de aproximadamente 30 a 40 sessões. A cobertura do convênio para a EMT costumava ser irregular, mas agora, a maioria das companhias e programas federais americanos cobrem a terapia com EMT para depressão resistente ao tratamento.
 

Durante uma sessão de EMT padrão, um paciente pode ler ou conversar com outras pessoas. Além disso, o paciente pode ir e voltar das sessões de EMT dirigindo, o que faz com que não precisem de alguém para supervisioná-las constantemente.
 

“O tratamento todo foi fantástico, a bobina que proporciona a estimulação se parece como um pica-pau dando toques suaves em sua cabeça. Eu não ficava nervosa com isso, estava confortável”, diz Griffith. “É um desconforto leve quando você começa, mas você se acostuma e os efeitos colaterais são muito limitados. Pode ser barulhento, mas você usa tampões de ouvido”.
 

Três semanas após o tratamento com EMT, a condição de Griffith começou a melhorar. Pessoas em torno de Griffith, incluindo o seu psiquiatra, notaram as diferenças nela desde o tratamento.
 

“A EMT fez Brenda ficar melhor e mais natural”, diz Beeghly. “Quando comecei a vê-la como paciente há muitos anos, vi uma foto dela sorrindo. Eu não vi esse tipo de sorriso dela por décadas. Eu vi com a EMT. Foi libertador para ela. Ela tem mais controle sobre sua vida de muitas maneiras. Em vez de dormir, ela agora passa tempo com sua família”.
 

Em média, os pacientes tendem a responder a EMT após duas a quatro semanas, e as taxas de resposta são animadoras.
 

“Para os pacientes que tentaram e falharam com pelo menos dois antidepressivos em episódios recentes, os dados mostram a regra dos terços” (comparação com a teoria utilizada na hora de compor uma imagem em fotografia), diz Mark George, um dos pioneiros no uso da EMT para a depressão no qual lidera o Laboratório de Estimulação Cerebral da Universidade Médica da Carolina do Sul. “Cerca de um terço receberá remissão (significa o enfraquecimento de uma doença) sem sintomas, outro terço receberá resposta com os sintomas cortados ao meio e, infelizmente, um terço não receberá resposta”.
 

Cerca de 58 por cento dos pacientes tratados com EMT terão uma resposta positiva, definida com uma redução 50 por cento ou mais em sua depressão, e 37 por cento de todos os pacientes terão remissão completa da depressão.
 

Um recente estudo de análise de custo-benefício realizado por cientistas identificou a EMT como a terapia dominante em comparação com a medicação antidepressiva dado os custos atuais de ambos. No estudo, cientistas usaram simulação de modelagem para determinar que a EMT pode ser fornecida a um custo menor e um maior benefício financeiro com melhores resultados de qualidade de vida em comparação com a medicação antidepressiva. Apesar destas estatísticas, há uma grande variabilidade de tratamento com o EMT.
 

“A EMT pode produzir uma resposta de tratamento durável, mas não é uma cura. Ela tende a durar cerca de nove meses, com variabilidade, com o tratamento continuado muitas vezes necessários”, diz Boes.
 

O QUE AINDA NÃO SABEMOS
Manter e estender a resposta do tratamento EMT é uma área de pesquisa ativa. Os especialistas em EMT acreditam que isso pode ser feito com protocolos de tratamento individualizados.
 

“Como muitas áreas da medicina, a EMT é um tratamento que algum dia pode ser customizada para que seja entregue de forma personalizada a corresponder com a anormalidade cerebral individual do paciente”, diz Linda Carpenter, especialista em EMT e professora de psiquiatria da Brown University.
 

Carpenter também acrescenta que antes que os serviços personalizados em EMT se tornem uma realidade, os cientistas ainda precisam descobrir como fazer a melhora clínica com EMT durar mais tempo antes que ocorra uma recaída depressiva. A maioria dos cientistas que estudam EMT acredita que uma maior consistência nas respostas ao tratamento e efeitos mais duradouros podem ser alcançadas se puderem identificar metas de estimulação mais precisas e personalizadas nos cérebros dos pacientes.
 

“Muitas pessoas pensam que uma melhor ciência por trás da segmentação, precisamente onde a ‘bobina’ de EMT é colocada no couro cabeludo, poderia trazer melhores resultados antidepressivos”, diz Carpenter. “Existe também interesse em aprender sobre outras atividades como psicoterapia, treinamento cerebral ou exercício que possam ser sinergicamente emparelhados com terapia EMT para obter o efeito terapêutico máximo”.
 

Na verdade, os cientistas recentemente publicaram um estudo que combinava EMT e psicoterapia para tratar pacientes com depressão. O que é emocionante é que eles observaram taxas de resposta e remissão significativamente maiores do que as previstas pela “regra dos terços”.
 

Há ainda mais perguntas sobre a EMT que, se respondidas, poderiam melhorar o tratamento. Por exemplo, os cientistas ainda não sabem exatamente a frequência que é necessária e a intensidade para a estimulação, quantas sessões devem ser administradas e como o tratamento funciona para obter a resolução de sintomas de depressão.
 

“Ainda não compreendemos completamente a cascata de tradução exata que a EMT inicia e que acaba por consertar a depressão”, diz George.
 

Apesar destas questões não respondidas, a evidência que apoia o uso clínico da EMT para a depressão resistente ao tratamento ainda é forte. Um recente estudo de tratamento em 42 clínicas locais de EMT, baseadas nos EUA, que trataram 307 pacientes com transtorno depressivo maior, confirmou que a EMT é um tratamento efetivo para pessoas incapazes de se beneficiar de antidepressivos. A EMT é cada vez mais viável e, de acordo com Carpenter, alguns cientistas acreditam que uma futura geração de dispositivos semelhantes de estimulação cerebral poderia ser segura para ser administrada em casa.
 

Embora a EMT não seja uma cura milagrosa e outros tratamentos devem ser testados primeiro, é mais viável e validado hoje do que nunca, e oferece uma opção para pessoas com depressão resistente ao tratamento, como Griffith. Griffith espera que sua experiência possa ser educacional para outras pessoas e suas famílias em situações semelhantes.
 

“A depressão afeta sua vida e afeta sua família”, diz Griffith. “Mas você tem que estar aberto a mudanças. Você tem que lutar contra a depressão e saber que existem opções”.
 

As opiniões expressas são as do (s) autor (es) e não são necessariamente as da Scientific American.

Por Kasra Zarei, 20 de dezembro de 2017.

Tradução livre do texto original em inglês do site Scientific American