EMTr: Evidências reais da neurociência

EMTr: Evidências reais da neurociência

Por TMS Brasil. Novembro, 2025.
 

A EMTr (Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva) de baixa frequência (≈1 Hz) tende a reduzir a excitabilidade cortical no local estimulado, favorecendo a inibição funcional de áreas hiperativas. Essa propriedade é explorada quando a patologia envolve hiperexcitabilidade cortical ou «interferência» de um hemisfério sobre outro (ex.: hemisfério não lesado após AVC). As recomendações e a maioria das revisões sistemáticas que seguem este raciocínio constam nos guidelines evidência-base sobre EMTr.1,2
 

Indicações com nível de evidência consistente (onde a EMTr é usada clinicamente)

1) Depressão resistente (especialmente protocolos 1 Hz sobre DLPFC direito)

  • Evidência: múltiplas meta-análises e revisões indicam que protocolos de baixa frequência aplicados ao córtex pré-frontal dorsolateral direito (DLPFC-D) produzem redução de sintomas depressivos, com eficácia comparável em muitos estudos à EMTr de alta frequência no DLPFC esquerdo. Guidelines dão suporte a EMTr como terapia para depressão resistente, incluindo protocolos de baixa frequência.1,3,4
  •  

    Exemplos de achados: meta-análises mostram melhoras estatisticamente significativas em desfechos de depressão com EMTr versus sham; alguns estudos mostram taxas de remissão comparáveis às de protocolos de alta frequência.3,5

2) Epilepsia focal (epilepsia farmacorresistente)

  • Racional: aplicar 1 Hz sobre o foco epileptogênico pode diminuir a excitabilidade cortical e reduzir descargas interictais e crises.
  • Evidência: revisões sistemáticas e meta-análises de estudos randomizados e per-paciente apontam redução da frequência de crises e dos potenciais epileptiformes em muitos pacientes, embora efeito e duração variem. Guias de revisão apontam evidência promissora, porém ainda com necessidade de estudos maiores e padronizados.6,7

3) Reabilitação pós-AVC (inibição do hemisfério contralateral com 1 Hz)

  • Racional: após AVC unilateral, o hemisfério não lesado pode exercer inibição excessiva sobre o hemisfério afetado; 1 Hz aplicado ao hemisfério contralateral pode reduzir essa inter-inibição e melhorar recuperação motora.
  • Evidência: revisões e meta-análises mostram benefício em medidas motoras (força, função da mão) especialmente em pós-agudo/subagudo; guidelines conferem nível de evidência favorável para melhora motora quando combinado a reabilitação. Estudos recentes com navegação do campo mostram efeitos clínicos e neurofisiológicos.8,9

4) Dor crônica / dor neuropática

  • Racional: modular redes de processamento da dor (córtex motor, pré-frontal) para produzir analgesia; embora protocolos e locais variem, tanto HF quanto LF foram testados.
  • Evidência: meta-análises e revisões mostram efeito analgésico moderado em algumas síndromes (neuropatia, fibromialgia, dor central), mas heterogeneidade de protocolos e resultados exige cautela. Guidelines discutem EMTr para dor com evidência variável conforme síndrome e protocolo.10,11

5) Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) — protocolos inhibidores (pre-SMA / OFC)

  • Racional: reduzir hiperatividade em circuitos cortico-estriatais (p. ex. pré-SMA ou OFC) usando EMTr.
  • Evidência: revisões e meta-análises recentes mostram sinal de benefício, especialmente quando protocolos e alvos são bem definidos; resultados heterogêneos entre estudos, mas o campo tem ganhado força e algumas abordagens têm efeito clínico relevante.12,13

6) Tinnitus (zumbido crônico) — 1 Hz sobre córtex temporal/área auditiva

  • Racional: reduzir hiperatividade cortical em áreas auditivas associadas ao tinnitus.
  • Evidência: múltiplos RCTs e meta-análises avaliaram 1 Hz sobre área temporal/tP; algumas análises mostram benefício modesto, mas estudos multicêntricos maiores produziram resultados negativos, logo a evidência é mista e não há consenso definitivo; ainda é considerado promissor em subgrupos selecionados.2,16,17

Indicações promissoras (em investigação, evidência preliminar)

  • Esquizofrenia (alucinações auditivas) — EMTr sobre área temporoparietal esquerda reduziu alucinações em vários estudos, com meta-análises mostrando efeito moderado, mas heterogeneidade permanece.1
  • Transtorno de Ansiedade / TAG / ansiedade social — estudos iniciais e revisões sugerem benefício potencial com protocolos inibitórios sobre DLPFC direito; necessidade de ensaios maiores.2
  • Dependência / craving — estudos pilotos usam EMTr para modular circuitos de recompensa e controle inibitório; resultados iniciais promissores.1
  • Tiques / Síndrome de Tourette — protocolos inibitórios sobre SMA/pre-SMA estudados com sinais de redução de tiques em séries e pequenos RCTs.1
  • Algumas desordens do movimento e distonias — evidência inicial e relatos de caso; pesquisa ativa.1

Observações práticas / limitações

  • Heterogeneidade de protocolos (local exato, intensidade % do limiar motor, número de pulsos/sessão, número de sessões) é grande — isso limita comparabilidade entre estudos e generalização. Guidelines tentam padronizar, mas variações metodológicas persistem.1,2
  • Durabilidade do efeito: em muitas indicações os efeitos exigem sessões de manutenção ou combinação com reabilitação/farmacoterapia para perdurar.1
  • Segurança: em geral EMTr é bem tolerada; risco de induzir crises é menor com 1 Hz do que com altas frequências, mas deve-se seguir protocolos de segurança e triagem.1

Referências

  1. Lefaucheur, J.-P., André-Obadia, N., Antal, A., et al. (2014). Evidence-based guidelines on the therapeutic use of repetitive transcranial magnetic stimulation (rTMS). Clinical Neurophysiology, 125(11), 2150–2206. doi: 10.1016/j.clinph.2014.05.021. (Pubmed)
  2. Lefaucheur, J.-P., Aleman, A., Baeken, C., et al. (2020). Evidence-based guidelines on the therapeutic use of repetitive transcranial magnetic stimulation (rTMS): an update (2014–2018). Clinical Neurophysiology. doi: 10.1016/j.clinph.2019.11.002 (Pubmed)
  3. Berlim, M. T., Van den Eynde, F., & Daskalakis, Z. J. (2013). A meta-analysis of randomized, double-blind and sham-controlled trials of low-frequency rTMS for major depression. Neuropsychopharmacology (meta-analysis). doi: 10.1038/npp.2012.237 (Nature)
  4. Cao, X., Ren, Y., Wang, D., et al. (2018). Low-Frequency Repetitive Transcranial Magnetic Stimulation Over Right DLPFC for Treating Major Depressive Disorder: A Meta-Analysis. Frontiers in Psychiatry. doi: 10.3389/fpsyt.2018.00413 (Pubmed)
  5. Caparelli, E. C., et al. (2022). Low-frequency rTMS over right DLPFC in treatment-resistant depression. Frontiers in Neuroscience. doi: 10.3389/fnins.2022.997259 (Frontiers)
  6. Cooper, Y. A., et al. (2017). Low-frequency rTMS for treatment of drug-resistant epilepsy: systematic review and individual participant data meta-analysis. (PMC article). doi: 10.1002/epi4.12092 (PMC)
  7. Mishra, A., et al. (2019). Meta-analysis: rTMS in drug-resistant epilepsy reduces seizure frequency and interictal discharges. PMC review. doi: 10.3988/jcn.2020.16.1.9 (PMC)
  8. Fisicaro, F., et al. (2019). Repetitive transcranial magnetic stimulation in stroke: a narrative review of current evidence and future directions. (Frontiers). doi: 10.1177/17562864198783 (PMC)
  9. Edwards, D. J., et al. (2023). Electric Field Navigated 1-Hz rTMS for Poststroke Motor Recovery. Stroke (study on navigated 1-Hz rTMS). doi: 10.1161/STROKEAHA.123.043164 (AHA Journals)
  10. Galhardoni, R., et al. (2015). Repetitive transcranial magnetic stimulation in chronic pain: systematic review. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. doi: 10.1016/j.apmr.2014.11.010 (PMR)
  11. Yang, S., et al. (2020). Effect of repetitive transcranial magnetic stimulation on pain: review/meta-analysis. PMC article. doi: 10.3389/fneur.2020.00114 (PMC)
  12. Pelissolo, A., et al. (2016). Repetitive transcranial magnetic stimulation of the pre-SMA in OCD: trial and data. doi: 10.1093/ijnp/pyw0254 (PMC)
  13. Fitzsimmons, S. M. D. D., et al. (2022). rTMS for OCD: systematic review and network meta-analysis. (2022 review). doi: 10.1016/j.jad.2022.01.048 (Science Direct)
  14. Steuber, E. R., et al. (2023). Meta-analysis of rTMS in OCD. doi: 10.1016/j.bpsc.2023.06.003 (ScienceDirect)
  15. Dong, C., et al. (2020). Low-frequency rTMS for chronic tinnitus: systematic review and meta-analysis. doi: 10.1155/2020/3141278 (PMC)
  16. Schoisswohl, S., et al. (2019). rTMS parameters in tinnitus trials: systematic review. Scientific Reports. doi: 10.1038/s41598-019-48750-9 (Nature)
  17. Schoisswohl et al., and other tinnitus meta-analyses noting mixed results and need for larger RCTs. doi: 10.1016/j.brs.2020.11.014 (ScienceDirect)